Segunda-feira, 14 de Abril de 2008

Seção do leitor I


Hoje estou inaugurando uma nova parte do blog "Biotética e Vida", é a seção do leitor.

Já faz algum tempo, recebi um comentário no texto "Bioética preventiva, anticoncepcionais." do leitor Willian:

"Sou católico, e respeito seu ponte de vista,assim como sei que vc respeita as diferentes crenças como citado.. sugiro que vc acesso esses sites e veja que a Igreja possui base quando se pronuncia a respeito dos métodos anticoncepcionais:
http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=NOVIDADE2&id=ni21036

http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2007/02/08/o-resgate-da-castidade/

Que DEUS TE ABENÇOE!!!"

Pois bem, Willian, para te responder apropriadamente é preciso antes de tudo que eu desconsidere duas coisas. Primeiro as suas reticências irônicas (ou talvez um ponto final duplo?), pois eu de fato me esforço em respeitar as crenças alheias. Segundo, eu entender o seu ameaçador Que DEUS TE ABENÇOE!!!. Se você não sabe, eu te aviso, caps lock na internet quer dizer gritar, e é enfatizado pelas exclamações. Sendo assim eu preciso desconsiderar que você gritou comigo, no meu blog. Prefiro acreditar que não foi uma ameaça, mas de qualquer modo se o Seu Deus existir ele sabe onde me encontrar.

Eu tentei ver o que você pediu. Não me refiro aos sites, eu fui lá. O que não consegui ver é a tal base que você afirma que a igreja possui para se pronunciar sobre anticoncepcionais. Quanto à eficácia de métodos anticoncepcionais, óbvio que a castidade é o mais eficiente de todos. O problema é que muitos jovens citados, inclusive nos tais programas de castidade dos textos que você enviou, quando decidem não seguir os tais votos não fazem a mínima idéia de como prevenir gravidezes e doenças. Reitero o que disse no último parágrafo :

Se usar algum método anticoncepcional é um atentado ao plano divino não faço idéia, não me atrevo a opinar sobre algum suposto plano divino. Para aceitar isso, como qualquer outro artigo de fé, é preciso fé apenas.

Com todo respeito, tenho uma teoria do motivo pelo qual pessoas da sua fé, de de muitas outras fazem tamanha apologia da castidade. Você supervalorizam a procriação, e a enxergam como a mais importante, senão a única, função do sexo. E, com todo respeito, você estão errados. O fato de algumas pessoas optarem por acreditar que o sexo só possui como finalidade a procriação não torna isso verdadeiro. Sexo possui uma função social imensa na nossa espécie, não por acaso casais saudáveis, sem nenhum impedimento físico ou psicológico, continuam a ter relações sexuais mesmo com a mulher grávida.

As relações sexuais além de serem ótimos exercícios, promovem a afetividade entre os casais. Sexo é uma necessidade sim, independente da sua crença. Evidente que alguns escolhem sublimar tal necessidade, com uma gama variada de justificações, tais como "pecado".

Na verdade achei o texto sobre "o resgate da castidade" bastante curioso. Informações tais como "cincoenta mil jovens entregou ao Papa um abaixo assinado se comprometendo a viver a castidade" [SIC] me deixam curiosa sobre grau de eficácia de fazer adolescentes, menores sob o ponto de vista legal, assinarem um termo desses.

E observações do tipo "Não fomos criados para nos contentarmos apenas com o prazer sexual passageiro; não somos animais." ou " esta triste, vergonhosa e promíscua campanha de prevenção à AIDS através do uso da “camisinha”, patrocinada pelas autoridades. Sinto vergonha diante Deus e dos homens. De maneira clara se passa esta mensagem aos jovens: “pratiquem sexo à vontade, como bichos, mas usem o preservativo.” Ora, o que nos distingue dos animais é o uso da inteligência e a vontade. "

Vários aspectos me deixam muito curiosas sobre o raciocínio do autor, vamos destacar algumas:

  • Qual o problema de se satisfazer com o prazer sexual passageiro?
  • Existe prazer sexual que não seja passageiro? Quer dizer, alguém realmente consegue sentir prazer sexual tempo inteiro?
  • Campanha de prevenção da Aids é promíscua? No meu entendimento tais campanhas afirmam algo parecido com "se for transar, se previna, use camisinha" ao invés de "todo devem transar indiscriminadamente",praticamente uma apologia ao sexo.
  • Como assim "animais", ou "bichos"? Por acaso o homem não é um animal? Se não for, gostaria de ser informada em qual reino o ser humano se encontra: vegetal, fungo, monera, protista. Ou quem sabe vírus ou mineral.
  • Como o autor da tal texto afirma tão categoricamente que os animais não fazem uso da inteligência ou vontade, ou ambas.
Talvez o leitor pense que sou sarcástica, e talvez tenha razão. Mas eu não entendo como ironia e sarcasmo quando vindos de um ponto de vista religioso merecem tanta proteção e silêncio, e quando vindos de um ponto de vista não religioso são vistos como desrespeito.
Creio que muitas vezes para tamanha intolerância às vezes o sarcasmo e a ironia são a melhor saída, pois se levarmos a sério demais certas opiniões perceberíamos quanto ódio podemos encontrar, o que não ajuda a desenvolver diálogo contrutivo algum.

Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

Em Família

A imagem acima se refere à xenofobia, mas poderia tratar de diversos preconceitos. Assim como a xenofobia remete ao nazismo, também uma recente discussão sobre o incesto parece lembrar bastante as justificações do Füher. Dois casos tem tido bastante repercussão, e são eles:

Pai e filha chocam Austrália ao revelar relação e filhos

John e a mãe de Jenny se separaram quando a filha tinha apenas um ano, disse o programa. Jenny se casou, teve dois filhos e passou quase três décadas sem ter contato com o pai.
Procurou-o há oito anos, para proporcionar às suas crianças a oportunidade de conviver com o avô.
"Quando o conheci, foi como conhecer um homem. Embora fosse meu pai, quando o conheci, conheci John, outro homem, um adulto", descreveu Jenny ao programa.
"Depois de alguns dias, comecei a perceber que meus sentimentos estavam mudando, e que eu o estava vendo como um homem, uma pessoa amável, cuidadosa, para quem... bem, eu olhava e dizia 'ele não é tão mal assim'".

Casal de irmãos quer mudar lei alemã do incesto

Quem vê Patrick Stuebing e Susan Karolewski brincar com o seu filho no chão da cozinha do apartamento do casal, em Leipzig, na ex-Alemanha Oriental, pode pensar que está diante de uma cena familiar comum. A diferença é que os dois são irmãos biológicos e desafiam não só o tabu como a legislação contra o incesto no país. Para o casal, que já teve quatro filhos, nada mais natural.
"Muitos vêem isso como um crime, mas não fizemos nada de errado", afirma Stuebing, um chaveiro desempregado de 30 anos.


Não se discute os casos obviamente criminosos, quando um adulto coage uma criança, ou outro adulto, a manter relações sexuais. Uma relação sexual não consentida é sempre algo criminoso, e relações sexuais com crianças também. Quanto a definição de criança, e a discussão do ponto adequado para situar a maioridade penal, vou deliberadamente passar a oportunidade de discutir tal assunto para uma outra vez por uma questão de espaço, dentre diversos motivos. Para todos efeitos por adultos, neste texto, devemos entender maiores de dezoito anos.

Claro que a situação descrita em ambas reportagens pode chocar à maioria das pessoas, vivemos numa sociedade onde o incesto é um forte tabu. O próprio conceito de incesto parece ser um tanto elástico, para algumas culturas não há mal alguns numa relação entre primos, enquanto outras até prescrevem leis contra tal relacionamento. E mesmo dentro de tais tabus há graus de espanto. Para muitas pessoas a segunda história, onde dois irmãos que praticamente não se conheciam se reecontram e se apaixonam, pode parecer mais "perdoável" que a primeira, onde uma filha reencontra seu pai trinta anos depois e se apaixonam.

Embora as duas relações sejam plenamente consensuais entre dois adultos ainda assim há leis restritas, e em ambas situações os casais foram penalmente punidos pelo relacionamento. O problema é que a justificativa para qualificar a relação como crime é muito fraca, a lei em si é fraca. É um crime sem vítima. Talvez as únicas vítimas sejam os réus , e os filhos envolvidos. Mas não pelos supostos perigos genéticos, mas crianças que já nasceram mas que a lei impede, seja lá por qual justificativa insana, que permaneçam com seus pais.

Filhos entre parentes tem maior probabilidade de apresentar defeitos congênitos, não há dúvida. O problema é que qualificar o incesto como crime se baseando nessa premissa é, para dizer o mínimo, ingênuo. Nem todo relacionamento sexual visa a procriação, já vivemos numa sociedade que, creio eu, parece já ter percebido isso a muito tempo. Penso que não preciso fazer aqui uma defesa do sexo não reprodutivo, o assunto já foi tangenciado por mim em outro texto, e certamente o explorarei melhor em outra oportunidade. Basta dizer que a procriação não é a única função do sexo, não por acaso há diversos casais sem filhos, ou que não pretendem ter mais, ou mesmo que pretendem nunca ter, por aí e que certamente não são celibatários. Além do quê, como dito no segundo caso, o irmão já fez vasectomia, então qual o perigo de haver reprodução?

Mas mesmo que a relação vise a reprodução, em outras palavras, tal casal incestuoso resolva ter filhos. Afirmar que tal relacionamento é crime visando ideais eugênicos, como na reafirmação dos perigos probabilísticos dessa mistura genética, é insustentável, é intolerável, é nazista. Dizer que há maior probabilidade de defeitos congênitos é inquestionável, há mesmo . Problema é que começar a impedir uniões baseados em "perigos genéticos" é uma premissa perniciosa. Alguns poderiam dizer que há maior incidência de baixo QI na população negra, e que portanto os negros não podem se reproduzir pois tem maior chance de gerar uma criança com baixo QI. Ou que um casal próximo dos quarenta anos tem maior probabilidade de ter um filhos autista ou com síndrome de Down, portanto não podem se reproduzir. Ou que casais de judeus Ashkenazi tem uma chance muito maior que o resto da população mundial de gerar uma criança com Tay-Sachs, portanto não podem se reproduzir. E para diminuir tal perigo, porque não esterilizá-los de uma vez? Mas isso seria nazismo não é mesmo? Mas será que a castração jurídica é tão diferente da física, no sentido que uma sociedade se sente no direito de proibir a reprodução de certos indivíduos apenas porque sua união , além de estranha, corre o perigo de gerar uma criança com defeitos congênitos?

No final do texto do primeiro caso a reportagem cita:

"Na mesma reportagem, o programa 60 Minutes mostrou outro caso de 'atração genética' - o de um casal de escoceses em que marido e mulher são filhos da mesma mãe.
Segundo o programa, Danielle Heaney e Nick Cameron chegaram a ser presos e acusados de incesto.Livres para viver juntos, eles podem acabar tendo de cumprir prisão perpétua se tiverem relações sexuais."

A pergunta é "onde está o crime numa relação sexual consentida entre dois adultos?". Não faz muito tempo e outros tipos de " relação sexual consentida entre dois adultos" também eram punidas criminalmente, tais como adultério e homossexualidade.

Quem souber de um impedimento ético para tais relações que fale agora, ou...

Mais sobre os casos:

Casal de irmãos perde recurso contra lei alemã de incesto

E se... não existisse o tabu do incesto?

Father and daughter have a baby together after 30-year separation

Incest couple John and Jenny Deaves's first child died (tem vídeo)



Terça-feira, 11 de Dezembro de 2007

Falsos dilemas


Bioética é certamente uma área especial da Filosofia, uma espécie de amálgama de diversas áreas filosóficas como Ética e Filosofia da Ciência , e trata de temas bastante palpáveis para a maioria das pessoas. Seus dilemas se escondem no dia a dia em atos tão prosaicos quanto retirar um preservativo da embalagem, ou mesmo comer um bife. Talvez por isso mesmo, ao contrário de vários outros temas filosóficos, a Bioética é debatida vivamente por pessoas de diversas opiniões, mesmo quando essas mesmas pessoas não se dão conta. Praticamente todo mundo tem uma opinião a defender sobre questões como aborto e eutanásia.

Penso que no mar de opiniões possíveis, algumas religiosas, outras apenas filosóficas, vários tipos, ainda sim é possível identificar o que chamo de falso dilema. Falso dilema seria aquela situação que é vista como um problema, quando na verdade não o é, ou pelo menos não é o problema que aparenta. Muitos falsos dilemas são vistos no tema reprodução, um caso recente é o da mulher alemã de 64 anos que acaba de dar à luz. Segundo o site da BBC:

" A mulher, que é a mais velha a ser mãe no país, engravidou após se submeter a uma inseminação artificial no exterior, já que o tratamento é proibido por lei na Alemanha. Ela utilizou o sêmen do marido e o óvulo de outra mulher."

"Para o presidente da Associação Alemã de Medicina Reprodutiva, Ulrich Hilland, a gravidez é um “abuso do progresso da medicina”.

“Eu não acho que os pais poderão cumprir com seu dever de cuidar da criança até que ela amadureça”, disse o médico. "

Diversos aspectos são espantosos, dentre eles a possível clarividência do médico que proferiu a declaração. Não há evidências de que uma pessoa mais velha seja de fato mais incapaz para cuidar de uma criança, desde que ela se disponha. Claro que a idade é uma restrição, especialmente física, mas se basearmos como limite para se ter filhos a restrição física cai-se um precedente no mínimo desagradável.Para ser coerente à esse princípio então também deve-se limitar os direitos reprodutivos dos paraplégicos, cegos, surdos, ou alguém que teve a perna amputada por exemplo. E já que limitamos o direito de reproduzir pela condição física, porque não restringir o direito das pessoas obesas? Dependendo do nível da obesidade a pessoa pode ter mais restrições físicas e menor expectativa de vida que um idoso. Para não mencionar os casos em que , por razões como morte dos pais por exemplo, os netos são criados pelos avós. Não se vê ninguém criticando uma avó que por um motivo qualquer esteja criando seu neto, mas para certos setores parece muito errado uma mulher da mesma idade criar um filho.

Legislar sobre decisões pessoais é um terreno perigoso, e na maioria das vezes incoerente. Outro caso interessante é o da americana que resolveu congelar alguns óvulos para sua filha que tem síndrome de Turner. Sua filha possui apenas um cromossomo X em seu DNA, condição genética que, dentre diversos aspectos, inclui a esterilidade. Um argumento levantado foi que "A criança sofreria de imenso trauma ao saber que é fruto do óvulo de sua avó". Não vejo em que isso seja um argumento, uma vez que a única opção possível seria não usar o óvulo, não haveria trauma algum, nem criança alguma. Para não mencionar, seria realmente um trauma? É dificil entender porque uma criança gerada de um óvulo de sua avó possa ter mais traumas que diversas outras frutos de óvulos de doadoras anônimas. A construção social humana sugere que a criação é muito mais forte que o elo genético, exemplos disso são as adoções que acontecem diariamente e que se transformam em casos felizes.

O falso dilema é aquele que cuja consequência maléfica está unicamente dos olhos de quem a vê. Exemplo comum de falso dilema é a perseguição aos homossexuais, a homossexualidade inclusive já foi considerada crime. Deixou de ser após a conclusão óbvia de que era um crime sem vítima, onde as possíveis consequências ruins estão certamente no plano muito mais religioso que prático. Da mesma forma a mulher que decidiu ser ainda capaz de ser mãe aos 64 contrariando a lei de seu país, não é possível ver o malefício de sua escolha. Se por acaso não fosse seu filho biológico, fosse um filho adotado ou neto, seria ela tão julgada?

Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

Estarei ausente por tempo indeterminado.

Domingo, 30 de Setembro de 2007

Bioética e o nascimento


O nascimento é um momento delicado e cercado de mitos. Atrás de muita idealização se esconde muita desinformação e falta de ética, sendo assim o parto é um assunto do qual a Bioética não pode se abster.

A chegada de um bebê por si só já parece tão significativa, tão importante, que pode parecer estranho que em tal fato se esconda tantas perversões. A expressão da moda atualmente é se falar em parto humanizado, como se o hospital e os médicos fossem vilões e não pretendessem o bem estar da parturiente. Por outro lado também encontramos hospitais e médicos que confirmam os temores, e que infelizmente são mais comuns do que se gostaria. Por experiência pessoal, embora o acontecimento de ter um filho seja, em circunstâncias normais e saudáveis, um acontecimento maravilhoso mas nada te prepara para o parto e seus constrangimentos.

Casos de médicos que marcam cesáreas por conveniência são muitos, e infelizmente populares. Há diversos aspectos cruéis, o preço do parto é bem mais alto, e a conveniência de fazê-lo no dia e hora marcada. Por contraditório que parece, no embate "acontecimento da minha vida versus comodidade do médico" essa última vence na maioria das vezes. Isso é cruel porque, para nem mencionar o dano psicológico de tal cirurgia, o risco físico é muito maior. Afinal cesárea é uma cirurgia, e como tal os riscos de infecção são maiores, os riscos durante a cirurgia também. E a recuperação é infinitamente pior que a de um parto normal, e além da cicatriz que carrega-se para o resto da vida há outros riscos na recuperação, como o de uma hérnia incisional ou uma aderência ,por exemplo.

Muitas mães, em especial as que tem a vantagem de um plano de saúde, pedem pela cesariana por diversos motivos, em especial o medo da dor. Não há como se prever a dor, algumas mães tem os filhos de maneira tão rápida e fácil que a dor é mínima, enquanto que para outras é mais sofrido. De qualquer modo para aquelas que tem medo da dor a medicina já proporciona ( a algum tempo) anestésicos que auxiliam. É ilusão crer que a cesariana não seja dolorida, ela é. O parto normal possui inúmeras vantagens, por exemplo o risco do bebê aspirar líquido é quase nulo uma vez que a própria passagem pelo canal vaginal já auxilia na prevenção desse problema. Idealmente o parto normal é o melhor para a mãe e para o bebê.

Por outro lado evitar a cesárea a todo custo não é seguro nem inteligente. Há casos onde a indicação é essencial para a segurança da mãe e do bebê. Da mesma forma que a cesárea por conveniência parece estúpida se evitar a qualquer custo uma cesariana que pode salvar vidas parece do mesmo modo inútil, para dizer o mínimo. Neste sentido há algumas dúvidas em relação aos partos com parteiras, por mais que algumas tenham bastante experiência e importância em especial naqueles cantos do Brasil onde o médico não chega. Nesses casos não há o que discutir, não há médico então a parteira é imprescindível. Mas nos centros onde há médicos é preciso que cada caso seja avaliado por um médico, nem sempre a parteira tem preparação para avaliar onde há a necessidade de cesariana. Minutos a mais sem oxigênio podem significar neurônios a menos , dentre outros riscos. A intenção aqui não é desqualificar tais profissionais, mas entendo que mais importante que um protecionismo de classe é o bem estar dos pacientes.

Nesse momento delicado muitas vezes a mulher perde a dignidade nas mãos de profissionais sem sensibilidade ou mesmo a mais básica ética médica. Ela deve ter a liberdade de estar acompanhada de um conhecido que a faça sentir reconfortada, o que muitas vezes não acontece. Quando tive minha primeira filha meu marido estava comigo na hora do parto, mas nas doze horas anteriores em que fiquei "tentando" (eufemismo, pois essa hora não se manda no corpo) ter dilatação estive sozinha numa sala com outras futuras mães e enfermeiras indiferentes. Para ser mais óbvia, vou citar algumas coisas que os médicos não devem fazer, e que por incrível que pareça ainda fazem:

  • Não indique cesariana se não houver necessidade. E se a gestante o desejar dê sua orientação para o melhor benefício da paciente. Certamente que o melhor para a paciente não é que você chegue no horário daquele churrasco. Nesse momento tão delicado a sua orientação não é apenas interessante, é essencial.
  • Não proporcione para sua paciente, dentro das possibilidades, um ambiente aterrorizador. O parto por si só já é emocionante, ela não precisa ficar sozinha, privada de seus conhecidos.
  • Também não precisa passar pelo constrangimento de ser examinada continuamente na frente de diversos estranhos. Entenda que para você e para as enfermeiras isso pode ser normal e automático, mas para a paciente não é. Ela deve ter o mínimo de privacidade para não se sentir constrangida.
  • Evite uso de violência verbal e psicológica. Frases do tipo "não grita, ou eu não vou te ajudar", "na hora de fazer você não gritou" , " você está nervosa porque não é casada"e etc. Esse tipo de comportamento não vai organizar o serviço médico, pelo contrário, vai deixar a paciente assustada e nervosa. Se não conseguir ser carinhoso, ou mesmo gentil, pelo menos se esforce e seja educado.
  • Não interessa quantos partos você faça por dia, durante um parto não é o melhor momento para discutir futebol ou política, ou marcar de beber um chop com a enfermeira. Contenha-se, o paciente, mesmo que você se esqueça , é uma pessoa.
Sugestões como essas não são exclusivas de médicos, mas também servem para atendentes e enfermeiras. Não penso que tal tipo de comportamento seja praticado por todo médico, pelo contrário, há muitos médicos e enfermeiras de delicadeza ímpar e comportamento profundamente ético. Mas infelizmente o comportamento descrito nas sugestões é comum o suficiente para ser observado em larga escala por muitas mães.

Por fim, espero que um dia não haja mais a expressão "Parto humanizado". Afinal todos os partos são a vinda de um ser humano através de outro e por auxílio de mais alguns, todos deveriam ser "humanizados" na medida em que são processos naturais e essenciais da humanidade. Humano , no sentido idealista do termo, é tratar com respeito e consideração outro ser humano . Sendo assim todo parto deve ser profundamente humanizado, e toda mãe e bebê tratados com o melhor do conhecimento e assistência.

Alguns vídeos:

Monthy Python - The Meaning of Life: The Miracle of Birth

Com seu humor ácido, esse grupo inglês mostra aspectos surreais do parto, embora com fundo de verdade.

3D Medical Animation of Normal Vaginal Birth

Video muito bonito e didático.

Links:

Parto Normal: Por Que é Melhor

Parto Humanizado

Cirurgia cesariana pode trazer mais complicações e uma pior recuperação pós-parto

Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007

Sobre genética

Já faz algum tempo que li entre as palavras-chave utilizadas para encontrar meu blog a expressão "verdades mentiras código genético". E muitas palavras-chave depois percebi que existem dúvidas não apenas de bioética mas de conceitos básicos. É complicado escrever sobre os dilemas que envolvem o tema aborto enquanto muita gente nem sabe direito o que é embrião. Eu poderia escrever sobre tais temas, mas certamente é muito mais interessante ler sob a perspectiva de alguém da área de biologia, que pode escrever com muito mais autoridade. Neste sentido, ao me deparar com o excelente texto do Thiago Henrique Santos achei que seria interessante publicá-lo aqui. Com as devidas autorizações, aí está:

Pau que nasce torto, nasce torto mesmo?

Estes dias, entre amigos meus, surgiu uma questão interessante. Características humanas, como egoísmo ou comportamento violento por exemplo, são inatos? Seriam essas características definidas pela genética ou seriam fruto de interações do indivíduo com o meio ambiente?

É de costume, neste tipo de discussão, estabelecer relações comparativas com o comportamento de animais. Mas mesmo na etologia, a área do conhecimento que estuda o comportamento animal, essa questão não esta bem definida. Existe uma séria de complicações em se detectar quando um comportamento é inato ou quando foi aprendido. Alguns pesquisadores afirmam que é simplesmente impossível ter certeza de que um comportamento qualquer seja inato. A alegação é que ainda que um animal seja isolado de seus pais no momento do nascimento, ou ainda antes quando se trata de animais que botam ovos, não é possível afirmar categoricamente que ele não tenha sofrido um estímulo qualquer durante sua vida embrionária.

Pelo lado da genética a situação é igualmente nebulosa. Ainda assim existem bravos pesquisadores envolvidos com essa questão e, aparentemente existe um consenso geral de que é muito provável que o comportamento animal seja definido pela genética e pelo meio ambiente ao mesmo tempo. O estudo do canto das aves fornece alguns dados interessantes neste sentido.

Experimentos efetuados com pardais compararam o canto de aves de diferentes espécies em duas condições específicas. Algumas aves eram isoladas do convívio com outras enquanto outras aves eram mantidas em seu convívio normal. O que se constatou foi que, muito embora o padrão do canto das aves mantidas isoladas fosse substancialmente diferente do padrão das aves mantidas em convívio com outras, características específicas do canto de cada espécie (como a duração do canto por exemplo) eram mantidos. Isso pode significar um bocado de coisas, mas aparentemente a constatação mais clara é a de que o canto em si é de fato um fator genético já que as características individuais do canto de cada ave foram mantidas nas que foram isoladas de seus pares, no entanto, os padrões dos diferentes cantos de cada espécie são aprendidos.

Ainda no campo da genética existe um conceito conhecido como plasticidade fenotípica. A definição deste termo diz que um genótipo qualquer pode produzir diferentes variações fisiológicas, morfológicas ou comportamentais em resposta a condições ambientais específicas. Isso significa que um comportamento qualquer condicionado geneticamente (seja pelo comportamento em si, seja por depender de estrutura morfológicas específicas) pode ser modificado em razão da interação entre o genótipo e o meio ambiente. Por exemplo, se supormos que uma espécie qualquer de inseto tenha estruturas que produzam um som específico na época de reprodução, seu comportamento reprodutivo seria modificado substancialmente caso essa estrutura que produz o som seja originária de um genótipo que modifica sua expressão de acordo com, digamos, a disponibilidade de comida.

Mas voltando às características humanas. Será que elas passam por processos similares aos citados acima no que diz respeito ao comportamento animal? É preciso levar em consideração que o comportamento humano esta fortemente atrelado à cultura. Mas não seria a cultura a expressão máxima do comportamento humano? Não acredito que haja uma resposta definitiva para este caso.

Acredito apenas que passamos por processos similares aos dos outros animais, tendo a genética e o meio ambiente papéis fundamentais na formação de nossos comportamentos durante todo o processo evolutivo do homem. Os processos genéticos fornecendo a capacidade para o desenvolvimento de comportamentos sociais e culturais e o meio ambiente selecionando esses comportamentos. Não creio na possibilidade de alguém nascer predestinado a ser egoísta ou violento, como se é de imaginar caso a genética fosse a única força responsável pela expressão de tais características.

Nascemos todos com o potencial para o egoísmo e para o altruísmo. Para a violência e para o pacifismo. O que nos faz tender para um comportamento específico é nosso contexto histórico, social, cultural e, portanto, ambiental.

Terça-feira, 18 de Setembro de 2007

Dilema


_ Doutor, o senhor precisa me ajudar. Estou com muitas dores e sei que vou morrer. Alivie meu sofrimento. Mate-me rapidamente e sem dor agora mesmo. Não posso mais aguentar isso.

_ Vamos deixar isso claro- respondeu o doutor.- Você está sugerindo que eu devia, digamos, dar a você 20mg de sulfato de morfina. Uma dose tão alta que você logo perdesse a consciência e em pouco tempo morresse?

_ Isso! Por favor, tenha piedade- disse o paciente.

_ Infelizmente, isso é algo que não posso fazer- disse o médico - Entretanto, estou vendo seu sofrimento. E posso dar a você uma dose muito grande de analgésicos, digamos, uns 20mg de sulfato de morfina, uma dose tão alta , porém, que você logo perderia a consciência e em seguida morreria. O que você acha disso?

_ É igual à sua primeira sugestão- respondeu o paciente intrigado.

_ Ah, mas tem toda a diferença do mundo - respondeu o médico.- Minha primeira sugestão era de que eu matasse você, a segunda de que eu aliviasse sua dor. Não sou assassino, e a eutanásia é ilegal neste país.

_ Mas eu me livro do meu sofrimento das duas formas - protestou o paciente.

_ Verdade - disse o médico.- Mas uma delas evita o meu.


Obs. Texto inspirado no já inspiradíssimo "Porco Filósofo", leitura interessante e provocativa.